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Local onde as palavras sobre a alma e o cotidiano podem se encontrar. Palavras coisificando o mundo!



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Vinícius Silva
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Marcadores: Photográphicas
A luz encerra seu expediente.
O ambiente dá as boas vindas à escuridão.
Nada mais há.
Só a sala esquecida em seus retalhos.
A tela da máquina divide seu espaço na mesa.
O porta retrato contém a imagem do casal.
O significado das coisas.
As coisas.
A caneta repousa encima do papel branco rasgado ao meio.
A tinta nela contida está prestes a derramar-se.
Pronto.
Gotas pingam sobre a face que até pouco alva estava.
Permanecem empilhados um sobre o outro.
Agenda.
Caderno.
Grampeador.
Todos ali.
Existindo.
Na ausência.
Agora frestas de luz chegam do poste que por perto pisca.
Pisca.
Pisca.
Uma formiga.
Jantava um grão da bala derretida e esquecida dentro da gaveta aberta.
Caminha.
Em sua velocidade de formiga.
Tropeça no apontador.
E continua.
Passa em frente à caixa que contém os rostos do casal.
Imune à imagem que reflete a pouca luz que ali existe.
Um grampo cai ao chão.
Resvala na lixeira.
O ruído de sua queda não chega a ninguém.
A formiga com seus ouvidos de formiga não ouve.
O casal da foto olha para frente e vê a maçaneta.
A maçaneta não sabe de sua existência.
Ninguém sabe o que pensavam no momento em que posaram para o retratista.
Nem a formiga.
Nem a tela.
Nem a caneta.
A tinta negra escorre e também chega ao chão.
Perto do grampo caído.
Estão próximos.
O grampo não sabe da existência do negro líquido, não sabe que é negro.
O mosquito toca com suas presas o rosto da mulher.
Não sabe que sangue ali não há.
Ninguém sabe o que pensavam no momento em que posaram para o retratista.
Não sabe.
A formiga morre ao cair do grampeador empilhado sobre a mesa.
O ruído que seu corpo fez ao cair ao chão ninguém ouve.
Nem o grampo.
Nem o mosquito.
O mosquito zumbe em seu vôo de fome.
Ninguém escuta.
Nem a tela.
Nem a caneta.
As frestas de luz ficam mais fortes.
O Sol lança seu perfume quente sobre as coisas.
Mas o Sol não sabe da tinta derramada, da formiga morta, do mosquito faminto.
O Sol somente aquece.
Chegam.
A lâmpada é acesa.
A porta é aberta.
O chão é pisado.
E agora?
Neste momento.
Neste exato momento.
Tudo.
Todos.
Formiga, grampo.
Mosquito.
Coisas.
Tudo sentido faz.
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Marcadores: Poemas d'Agora
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Marcadores: Labuta


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Marcadores: Bobagens..., Pensamento Solto

Morreu, hoje, um dos grandes.
Cheguei em casa e recebi a notícia de meu pai: "- Tá sabendo?"
Não, não estava.
Michael Jackson, com 50 anos, tinha morrido fazia algumas horas antes.
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Vinícius Silva
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Marcadores: Acordes, Marca-Texto
Sono picotado.
Mais 5 minutinhos, mais 10 minutinhos.
E eu travo.
Sono picotado.
Mais 15 minutinhos, mais 20 minutinhos.
E eu travo.
Sono picotado.
Mais 25 minutinhos, mais 30 minutos.
E eu paro.
Sim. O relógio aponta, a sirene toca.
Mas eu percebo que ainda assim
é melhor o sono dormido
do que o sono acordado.
Sono picotado.
Relógio travado.
Sonhos não lembrados.
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Marcadores: Poemas d'Agora
Te afastas de mim, demônio.
E leva contigo os cheiros.
As imagens.
As palavras.
Te afastas e avisa em teus domínios que estou vivo.
Que estou de pé em riste.
Apontando o dedo para o que é triste.
Que travo luta inglória, mas que travo.
Te afastas e lembra-te que faz parte de todo mundo.
Porém não estás em tudo, como alguns insistem em gritar.
E que precisas existir para mostrar o que é justo.
Então só peço que te vás um pouquinho.
Que me esqueça em meu cantinho.
Buscando em mim o que às vezes nem lembro mais.
Suplico, portanto, que só voltes quando estiver inteiro.
Porque sem um verdadeiro guerreiro.
Não tem graça pelear.
Te afastas. Vai. Me deixe quieto.
Pensando.
Que não há nenhum encanto.
E que é sempre preciso...
Se encontrar.
Vixe! Xô! Vá de retro, Satanás!
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Marcadores: Poemas d'Agora
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Marcadores: Pensamento Solto, Shakespereando
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Marcadores: Marca-Texto

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Marcadores: Poemas d'Agora
Ramon era o cachorro de meu avô e de minha avó.
Vivia com eles quando eu, meu pai, mãe e irmão nos mudamos para a casa deles.
Quando minha vó morreu eu ainda era muito criança.
Acho que Ramon morreu antes de minha avó.
Não sei a razão, mas acho que ainda recordo da partida de Ramon.
Foi enterrado no quintal da casa de meu tio, em frente à casa do meu avô.
Lembro, eu era criança.
Ele foi enterrado em um saco de plástico, daqueles que são feitos de fiapos entrelaçados.
Acho que era um saco de arroz.
Não lembro.
O buraco foi cavado.
E eu estava ali, criança, vendo adultos sorrindo e conversando, cavando distraidamente um buraco.
Como se nada ali houvesse.
Como se nada tivesse acontecido.
Disso eu lembro.
Seu corpo foi colocado na cova e lembro também de ter visto um pó branco.
Tempos depois descobri que era cal.
Ramon era um vira-lata robusto misturado com pastor alemão, eu acho.
Talvez.
Lembro que eu chorava meio que sem saber o motivo.
Só sei que era criança e que chorava.
Sentado em uma mureta.
Ou em pé?
Não sei.
Só lembro que...
Chorava sozinho.
E sem saber porque, hoje, com 30 anos, revi a imagem de Ramon.
E sem saber porque, novamente, me peguei chorando sozinho.
E mais uma vez, lembrei, talvez, não sei.
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Marcadores: Poemas d'Agora
Tu não pertences mais a mim.
Vives em outra esfera.
Em outra ambiência.
Afastada de minha essência.
Voas como pipa perdida, avoada.
Pelas marolas do vento.
Às vezes, encarcerada num convento.
Distante.
Como memória encardida.
Mas como? Se nunca aprendi a soltar pipas.
Um dia meu pai tentou ensinar-me, em vão.
Deve ter sido por isso que não soube controlar-te.
Aprisionar-te em mim.
Ficaste perdida nos emaranhados dos sentidos.
No labirinto do tempo.
E hoje, de vez em quando, tu voltas.
Com espinhos em mãos.
Como coroa pesada, em minha nuca.
Não sinto tua falta.
Mas que...
Mentira!
Tua volta inconstante me alegra.
Infância passada.
Mulher amada.
Ondes estás agora?
Volta!
Decifra o labirinto.
Traz contigo o vento, o tempo.
E todos os outros que levaste também:
Bonecos de chumbo.
Futebol na terra.
Subidas nas árvores.
Amigos de rua.
Volta!
Só de vez em quando.
Para lembrar-me dos gritos de mãe.
Das fofocas de vizinhas.
Das brigas de moleques.
Dos ciumes de irmão.
Traga o cabelo branco do meu bom velho.
A odiada saudosa escola.
Os almoços de domingo.
Os medos do homem da sacola.
Enevoe minhas imagens.
Confunda minhas estórias.
Iluda a realidade.
Refaça as glórias.
Volta! Mas só de vez em quando.
Porque agora tenho nova vida.
Nova estrada e algumas feridas.
E a vontade cada vez maior de respirar.
Cada vez mais. Cada dia a mais.
Para fazer-me de novo criança.
Para fazer nova criança.
E reviver-te de novo em outros ais.
Agora despeço-me e digo.
Que aqui estou sob medida.
Para falar-te a qualquer instante.
Que logo logo é despedida.
Mas vamos juntos.
Navegando nosso barco.
Minha amada e maculada.
Minha velha e doce...
Amiga.
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Vinícius Silva
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